23/05/2008

12 | GLOCALIZAÇÃO EM DISPUTA

A glocalização está em disputa e essa disputa é, fundamentalmente, uma disputa entre o ‘local separado’ e o ‘local conectado’, entre ‘dependência x independência’, por um lado, e ‘interdependência’, por outro.

Na seção anterior afirmei que a idéia segundo a qual, a partir de um certo momento do final do século 20, cada parte do mundo, como disse Morin, “traz em si, [ainda] sem saber, o planeta inteiro”, é a idéia-chave para entender a glocalização no sentido que estamos atribuindo a esse termo (diferente daqueles atribuídos pelos economistas japoneses que o cunharam no final da década de 1980 e, também, por Roland Robertson, que o redefiniu, como aspecto da globalização cultural, em meados dos anos 90).

Somos tentados a ver aqui uma certa ordem na história. Agnes Heller concluiu um belo ensaio, publicado em 1999 (“Uma crise global da civilização: os desafios futuros”), com uma frase luminosa: “E a modernidade só pode sobreviver em nível global” (1). Com efeito, é difícil deixar de pensar que se o mundo moderno é um mundo global e o mundo pré-moderno era um mundo local, o mundo pós-moderno será um mundo glocal. Mas resistindo à tentação de urdir uma nova filosofia ou um novo schema interpretativo da história, parece mais razoável afirmar que o destino configurado por um mundo holográfico de centenas de milhares de comunidades sócio-territoriais e virtuais articuladas em rede planetária não está garantido. Serão os movimentos sociais e as opções políticas que nos levarão para esse ou para outros cenários.

Cheguei a mencionar os novos movimentos sociais, de ethos cooperativo (ou, pelo menos, não predominantemente competitivo), que poderiam nos levar na direção dessa nova utopia. Na presente seção pretendo tratar das escolhas políticas.

Começo com a seguinte afirmativa. A glocalização está em disputa e essa disputa é, fundamentalmente, uma disputa entre o ‘local separado’ e o ‘local conectado’, entre ‘dependência x independência’, por um lado, e ‘interdependência’, por outro.

Dizer que a glocalização está em disputa, nos termos acima, significa dizer que existem reações à glocalização que podem inviabilizá-la. A glocalização, apenas prefigurada nos dias de hoje, só poderá se consumar com o ‘local conectado’. As reações que podem inviabilizar a glocalização são aquelas que procuram manter o ‘local separado’.

Dizendo a mesma coisa de outra maneira, e talvez com um pouco mais de precisão, a glocalização somente poderá se consumar em um quadro de interdependência. As reações que podem inviabilizar a glocalização são aquelas que procuram manter o mundo congelado e aprisionado em um estágio de contraposição ‘dependência x independência’. E isso é a mesma coisa porquanto ‘independência’ significa ‘local desconectado’ como alternativa à ‘dependência’, que significa ‘local hierarquicamente subordinado’. Ou seja, estamos falando de rede.

Definimos assim interdependência como a dependência mútua de todos os processos que ocorrem em um sistema complexo que admite como padrão organizativo o padrão de rede. Conclusão: a glocalização só pode se consumar na sociedade-rede.

Todavia, a interdependência tende a se manifestar nas coletividades humanas que possuem um ethos de comunidade. Somente em um contexto de comunidade se pode ascender à consciência do papel, vital para a continuidade do sistema, que cumprem as múltiplas relações que se estabelecem entre seus membros. Daí por que a glocalização aponta para um mundo holográfico de numerosas comunidades sócio-territoriais e virtuais, transnacionais e subnacionais, articuladas em rede planetária.

Vamos nos concentrar agora, entretanto, na disputa em torno da glocalização, ou seja, nas escolhas políticas que poderão nos levar a uma superação da polarização ‘dependência versus independência’ ou que, ao contrário, poderão nos manter aprisionados nessa estiolante contradição não-resolvida, característica do que alguns chamam de modernidade.

Parece óbvio que um mundo configurado como um conjunto assistêmico de Estados-nação inviabiliza (ou dificulta sobremaneira) a adoção da democracia no plano internacional. Modos de regulação de conflitos que hoje se exige sejam praticados por todos os países no âmbito interno não são exigidos no âmbito externo. A isso se chama realismo político.

Também parece óbvio que arranjos competitivos de Estados-nação poderão ser estáveis somente em curtos intervalos de tempo. Mais cedo ou mais tarde tais arranjos levarão à predominância de um Estado ou de um conjunto de Estados sobre os demais, em uma dinâmica de ‘centro x periferia’ ou de ‘dependência x independência’.

Todavia, a unipolarização é um caminho para a multipolarização e, portanto, para a desconstituição do monopolo. Mantendo-se as escolhas políticas feitas atualmente pelas grandes potências (como os USA), o mais provável é a volta de uma bipolarização. No caso do mundo atual, pode-se prever que, dentro de duas ou três décadas, forme-se novamente um dipolo (por exemplo, USA contra China, ou América do Norte e Reino Unido contra União Européia). Por quê? Porque impérios precisam sempre de pólos conflitantes e não podem ser construídos na ausência de inimigos. Por isso, a “lógica” autocrática é essencialmente guerreira.

Isso não significa, necessariamente, existência de guerra (“quente”), mas pode se dar em um ambiente de guerra (“fria”). O que importa aqui é a “lógica” de guerra como um modo de relação e não se serão disparados mísseis sobre a cabeça de alguém. O mais provável é que, tornado permanente ou constante esse ‘estado de guerra’, se passe da guerra fria para a guerra quente e, depois, novamente para a guerra fria, aprisionando o mundo em um círculo satânico.

As guerras quentes movidas nos albores do presente século pelos USA constituem uma reação ao fim da guerra fria simbolizado pela queda do Muro de Berlim. Como vimos no capítulo anterior, constituem uma reação à globalização e, na verdade, como estamos vendo agora, constituem, mais precisamente, uma reação à glocalização. Tentam manter diferentes partes do mundo em uma disputa pela independência em relação à parte dominante, ou seja, aquela parte que tenta manter as outras partes em estado de dependência. Quer dizer: tentam manter o mundo preso na polarização ‘dependência x independência’.

Tentar romper com a dependência a partir de lutas pela independência reforça a “lógica” autocrática. As novas partes independentes logo virarão cópias malfeitas das que, no passado, mantiveram-nas dependentes e tenderão, no futuro, a manter outras partes dependentes de si. A única maneira de superar a dependência é desconstruindo a dinâmica ‘dependência x independência’ e isso só pode ser feito com a instalação da ‘interdependência’.

A principal escolha política para desconstruir a “lógica” autocrática é a democracia, ou melhor, o processo continuado de democratização, sobretudo a democratização da própria democracia (ainda insuficientemente democratizada, apenas representativa e apenas formal, escolhida sem grandes dificuldades por Estados-nação com pretensões neo-imperiais, inclusive como aval e pretexto para poder manter o mundo em ‘estado de guerra’, por exemplo, movendo guerras contra as não-democracias). No plano político o movimento pela democratização – em especial em âmbito global, pela democratização das relações internacionais e, em âmbito local, pela democratização de instituições, procedimentos e processos decisórios – é a principal revolução capaz de libertar o mundo do círculo satânico da guerra e de consumar a glocalização.

Ora, a democracia é um “metabolismo” (um modo político de regulação) conforme a um determinado “corpo” (um padrão social de organização): o padrão de rede. Digam o que quiserem dizer – inclusive os que tentam hiper-historicizar suas ocorrências buscando dela retirar qualquer característica universal intrínseca –, a democracia é, sempre, uma rede pactuada de conversações. Por isso, uma outra forma de apresentar a mesma hipótese dos dois últimos parágrafos é dizer que a única maneira de superar a realidade do local hierarquicamente subordinado a outro local não é por meio do ‘local separado’ e sim por meio do local conectado a uma multiplicidade de outros locais. O monopolo (em geral mantido como dipolo) somente pode ser superado pelo multipolo. E o multipolo só é viável como rede.

Em âmbito global, se os Estados-nação não fizerem tal escolha, em termos de política externa, cabe à sociedade civil mundial e a outros atores não-nacionais fazê-la, sobretudo promovendo um amplo e vigoroso movimento pela paz. Em âmbito local (interno), se os Estados-nação não fizerem tal escolha, em termos de orientação de suas policies, cabe também às sociedades civis e a outros atores não-nacionais fazê-la. De qualquer modo, a alternativa é o surgimento de atores transnacionais e subnacionais que tenham capacidade de se relacionar entre si, não obstante o que pretendam os Estados nacionais. Essa parece ser a única alternativa capaz de consumar o processo de glocalização que ora se prefigura, ativando a conexão global-local.

Portanto, fortalecer as sociedades civis locais, nacionais, regionais e, sobretudo, a sociedade civil mundial e outros atores não-nacionais (transnacionais e pan-nacionais, como, por exemplo, a Organização das Nações Unidas) e fortalecer as comunidades sócio-territoriais e virtuais subnacionais e transnacionais parece ser a orientação estratégica mais adequada para aqueles que desejam consumar a glocalização, que é, como vimos, um processo de planetarização e de comunitarização simultaneamente.

Por certo, o Estado não desaparecerá, não pelo menos em um horizonte previsível. Mas será transformado por pressões globais e locais, ou seja, por efeito de glocalização.
NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Heller, Agnes (1999). “Uma crise global da civilização: os desafios futuros” in Santos, Theotônio et al. (orgs.) (1999). A crise dos paradigmas em ciências sociais e os desafios para o século XXI. Rio de Janeiro: Contraponto, 1999.

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