23/05/2008

19 | LOCALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

Globalização do local tende a ser igual a localização do global.

A afirmativa de que globalização do local tende a ser igual a localização do global não é trivial. Formalmente (em termos lógicos) ela significa que globalização e localização serão a mesma coisa quando local e global também o forem. Ocorre que, mesmo que o mundo inteiro seja (visto como) um local, isso não significa que a dimensão global terá desaparecido. E nem se, por hipótese, o mesmo processo de localização, que ocorre em uma localidade qualquer do mundo, se completasse no planeta inteiro (com a coletividade mundial projetando e antecipando um mesmo futuro desejado, unificadamente, o que, como veremos, não parece ser possível – nem desejável...), ainda assim permaneceria existindo a dimensão global.

A dimensão global de certo modo é necessária para a definição da dimensão local. Local só adquire sentido diante do global. Toda a novidade do processo em curso de glocalização é a possibilidade da conexão global-local e não o fato de estar havendo, por um lado, uma globalização e, por outro lado, simultaneamente, uma localização. Quando uma localidade se conecta com outra localidade – que pode inclusive ser contígua geograficamente – ela está acionando a conexão global-local (ou local-global, tanto faz, pois essa relação é transitiva).

Assim, o local se globaliza quando ativa suas conexões externas. E, obviamente, tanto mais se globaliza quanto mais conexões “para fora” estabelecer. Em contrapartida, e isso está longe de ser tão óbvio, o global se localiza da mesma maneira; ou seja, quanto mais localidades globalizadas existirem, mais o global estará localizado. Ou, ainda, o global se localiza “por dentro”.

Enquanto um coletivo humano estável assentado sobre um território se localiza em função de suas conexões internas, o planeta humano como um todo se globaliza em virtude da localização dos seus componentes e não em função de sua própria localização, ou seja, de ter se transformado em uma “aldeia global”.

Em outras palavras, a globalização – ao contrário do que se imagina – não leva a uma aldeia global, mas a miríades de aldeias (unidades localizadas) globais. Isso é muito, muito relevante para que se possa entender o sentido da glocalização.

O que é o local? O local não é o que parece... O mundo pode ser um local: se o local globalizado for um mundo inteiro. Como escreveu Frank Herbert em 1976 (em “Os Filhos de Duna”), “em um universo infinito, local pode abranger algo tão gigantesco que sua mente se encolhe diante dele” (1).

A grande novidade da network society é que, pela primeira vez na história, o mundial pode virar local. A volta ao local significa que, em certo sentido, tudo está virando local. Por isso se diz que a localização é a outra face do fenômeno chamado globalização.

Já vimos que o local é necessariamente o pequeno, mas não no sentido territorial ou populacional e sim no sentido daquilo que foi tornado pequeno por força de alta “tramatura” social.

Assim, uma localidade não globalizada não é pequena, mesmo que seja apenas uma vila com 500 habitantes. O mundial não localizado é enorme, porque é inalcançável. O mundo de Dom Manuel em 1500 era um mundo imenso, tão imenso que as pessoas não sabiam sequer onde estavam as outras pessoas e o que encontrariam para além do que enxergava a vista... Ou seja, não era um local.

O mundial localizado será um mundo pequeno, menor, muito menor do que a Paraíba atual. Como vem cantando Caetano Veloso, desde 1978 (em “Terra”): “Pequenina como se eu / Fosse o saudoso poeta / E fosses a Paraíba / Terra, Terra”. Ainda que possa ser composto por milhares de localidades menores do que a Paraíba atual.

O mundo estará totalmente globalizado quando estiver totalmente localizado, o que significa: composto por miríades de identidades próprias. Para tomar uma imagem, já empregada por outros e em outras circunstâncias, milhões de pontos de luz, cada um com uma cor diferente, vibrando em uma freqüência diferente, porém conectados entre si, formando uma grande rede neural. Como escreveu Robert Muller, há mais de 20 anos, “conforme caminhamos para o terceiro milênio, talvez a participação em networks se torne a nova democracia, um novo elemento importante no sistema de governança, um novo modo de vida nas complexas e miraculosas condições globais do nosso estranho e maravilhoso planeta vivo, girando e circulando no universo prodigioso em uma encruzilhada de infinidade e eternidade” (2).

Em geral somos levados a pensar que se o mundo pudesse desejar coletivamente um mesmo futuro, globalização e localização seriam a mesma coisa. Tal, contudo, não ocorrerá, não pelo menos da forma como ainda estamos imaginando. Pode-se dizer que o sistema como um todo terá uma “mente” (a global mind citada por Morin) (3), mas apenas em sentido metafórico, não de uma consciência unificada e sim de um processo fractal.

Se a “mente de Gaia” é uma espécie de anima mundi, ou seja, uma inconsciência coletiva, isso não quer dizer que ela vá (ou possa) se tornar uma consciência coletiva individualizável. Pode-se sempre especular com hipóteses como as do aparecimento de um super-ser planetário, de um “cérebro global”, e lançar mão de metáforas bio-tecnológicas e de outros paralelos semelhantes para tentar dizer (ou esperar) que um processo regulatório consciente surgirá. Ao que tudo indica, porém, essas hipóteses não são necessárias, não pelo menos nas formas como têm surgido. A regulação é uma propriedade emergente, uma função da dinâmica complexa da rede e não atributo de um conhecedor individual. Substituir o deus preexistente (que sobrevém) pelo deus construído (que provém e advém, característica, aliás, da melhor tradição profética: o IHVH, dos profetas hebreus do setecentos a.C., é o deus que ‘será o que será’, como percebeu genialmente Ernst Bloch quando observou que, do ponto de vista dessa utopia hebraica primitiva, “deus não existe, porém existirá”) (4) só seria útil se tal operação substituísse também a compreensão de que a regulação é extrínseca ao sistema pela compreensão de que ela é inerente ao seu processo adaptativo; ou seja, de que a regulação societária global se dá por meio de miríades de processos holográficos que ocorrem em cada local-nodo da rede e não de um processo que possa ser unificado em um local distinto dos demais (e, portanto, separado dos demais), em um mainframe do tipo de The Matrix.

Por certo, ‘inteligências coletivas’ (no sentido de Pierre Levy e também, em parte, no sentido aventado por Joël de Rosnay) (5) tendem a surgir com o processo de localização e, assim, pode-se dizer que teremos, cada vez mais, “mentes coletivas” em funcionamento. Mas não é a ligação “em paralelo” entre essas “mentes” que produzirá o supremo regulador (como se fosse um supercomputador) e sim as numerosas conexões que cada uma delas estabelecerá com as demais (ou seja, a conexão local-global) que ensejarão a emergência de uma dinâmica complexa adaptativa.

A dispersão e a conexão e não a unificação é a chave para entender a nova dinâmica da globalização-localização e isso faz toda a diferença. É a chave para entender em que sentido globalização do local tende a ser igual a localização do global.

Parafraseando Herbert, ‘em um universo finito, tramado por múltiplas redes, local pode assumir características tão holográficas que nossa “mente coletiva” se expande para o mundo todo ao concentrar-se nele’.

Mas com isso já entramos na próxima hipótese do elenco, segundo a qual ‘localidades tendem a se tornar holografias do planeta à medida que reflorescem comunidades no mundo globalizado’.


NOTAS E REFERÊNCIAS
(1) Herbert, Frank (1976). Os Filhos de Duna. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
(2) Cit. por Lipnack, Jéssica & Stamps, Jeffrey (1986). Networks: redes de conexões. São Paulo: Aquariana, 1992.
(3) Cf. Morin, Edgar & Kern, Anne-Brigitte (1993). Terra-Pátria. Porto Alegre: Sulina, 1995.
(4) Bloch, Ernst (1968). El ateismo en el cristianismo. Madrid: Taurus, 1983.
(5) Cf. Rosnay, Joël (1995). O homem simbiótico. Petrópolis: Vozes, 1997 e também Levy, Pierre (1994). A inteligência coletiva: por uma antropologia do ciberespaço. São Paulo: Loyola, 1998.

2 comentários:

Anônimo disse...

muito bom o assunto

Albertina Lima disse...

Gostaria de saber se você poderia me explicar a expressão "Pensar Globalmente agir localmente" ?